O presente trabalho desenvolve uma análise crítica das transformações estruturais do jornalismo contemporâneo diante da incorporação intensiva de tecnologias digitais, com ênfase na inteligência artificial, nos dispositivos móveis e na convergência midiática, a partir do referencial da Economia Política da Comunicação e da Economia Política do Jornalismo. Parte-se do pressuposto de que o jornalismo não pode ser compreendido de forma dissociada das condições materiais de sua produção, uma vez que se constitui como forma de trabalho subsumida às dinâmicas do capitalismo informacional e de plataforma.
O estudo insere-se em um cenário marcado pela reestruturação produtiva do setor jornalístico, caracterizada pelo esvaziamento das redações, pela intensificação do ritmo de trabalho, pela ampliação das exigências multitarefa e pela crescente apropriação privada das tecnologias como instrumentos de racionalização, controle e redução de custos. A incorporação acrítica da inteligência artificial e de sistemas automatizados tem operado como mecanismo de aprofundamento da exploração do trabalho jornalístico, promovendo a substituição da força de trabalho humana, a padronização dos conteúdos e o empobrecimento dos processos de apuração e verificação.
A partir das contribuições de Mosco, Miguel, Brittos e Franciscato, compreende-se que tais transformações expressam a subsunção real do jornalismo às lógicas de acumulação do capital, nas quais a informação passa a ser tratada prioritariamente como mercadoria, orientada por métricas de engajamento, velocidade e rentabilidade. A convergência midiática e a mobilidade não se apresentam como processos neutros ou emancipatórios, mas como dispositivos estruturantes de um modelo produtivo que intensifica a precarização laboral, fragiliza a autonomia profissional e compromete os princípios éticos do jornalismo.
O trabalho analisa ainda os impactos dessas dinâmicas sobre os formatos e arranjos produtivos do jornalismo audiovisual em plataformas digitais, problematizando a centralidade dos dispositivos móveis como infraestruturas de produção e circulação da notícia. Ao mesmo tempo em que ampliam a capacidade técnica de produção, esses dispositivos são apropriados pelas empresas de comunicação como ferramentas de intensificação do trabalho e de dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de descanso, conforme apontado por Crary no debate sobre a lógica da exaustão no capitalismo contemporâneo.
No plano teórico-analítico, o estudo mobiliza o conceito de padrão técnico-estético alternativo para examinar experiências de jornalismo audiovisual desenvolvidas por coletivos e iniciativas fora dos centros hegemônicos de produção midiática, em contextos regionais e periféricos. Essas experiências são compreendidas como respostas concretas às assimetrias econômicas, geopolíticas e midiáticas, ao tensionarem os modelos dominantes de produção e circulação da informação.
A pesquisa adota abordagem qualitativa, de caráter exploratório e analítico-descritivo, baseada no mapeamento e na análise sistemática de conteúdos audiovisuais produzidos em plataformas digitais, considerando categorias relacionadas aos processos de trabalho, recursos técnicos, uso de inteligência artificial e arranjos produtivos. A dimensão formativa também é central, ao articular pesquisa, ensino e prática laboratorial como estratégia de enfrentamento à automatização acrítica do jornalismo.
Conclui-se que a compreensão do jornalismo contemporâneo exige uma abordagem estrutural e materialista, capaz de articular tecnologia, trabalho e poder, reafirmando a Economia Política do Jornalismo como campo teórico fundamental para a análise crítica das transformações em curso.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)